Visão geral das as causas que motivaram a Primeira Guerra Mundial.

Proclamação de Guilherme como Imperador Alemão no Salão dos Espelhos, Palácio de Versalhes, dentro da República Francesa em 1871. Pintura de Anton von Werner.

As causas da Primeira Guerra Mundial não resumem-se a uma única questão. São vários os fatores que, no início do século XX, fizeram o continente europeu confluir para a guerra. Em sua gênese, porém, se assim quisermos, podemos encontrar a Unificação da Alemanha por Otto Von Bismarck em 1871, como questiona a prestigiada historiadora, Margaret Macmillan: “A criação da Alemanha, em 1871, de repente apresentou à Europa um nova grande potência no centro do continente. Seria a Alemanha o fulcro em torno do qual o resto da Europa evoluiria ou a ameaça contra a qual se uniria?” (MACMILLAN, 2013). Pode-se entender, portanto, este fato, como de grande relevância para a geopolítica européia em fins do século XIX, uma vez que no centro do continente, nascia agora um estado forte, capaz de concorrer em pé de igualdade com França e Grã-Bretanha no cenário internacional, trazendo grande abalo para o conjunto de forças que imperavam na Europa. Em seu primeiro discurso ao parlamento, em 1897, Bernhard von Bulow, chanceler alemão, deixou claro o que pretendia, ao afirmar que a Alemanha também queria o seu “lugar ao sol”. Dava-se, a partir de então, início a uma corrida armamentista sem precedentes na história militar, principalmente entre ingleses e alemães, que passaram a investir vultosas somas de seus orçamentos no reforço de suas frotas navais.

Das guerras de Bismarck pela Unificação, ainda, restou uma questão se seria central para a Primeira Guerra Mundial, ou seja, a anexação pela Alemanha dos territórios da Alsácia-Lorena, pertencentes à França desde 1648, por meio do acordo que selou a Paz de Westfália. A região era rica em recursos minerais e abastecia parte da indústria francesa. A perda dos territórios para a Prússia, durante a guerra Franco-Prussiana (1870), nutria um adormecido mas latente revanchismo francês, e sua devolução à França foi uma das cláusulas protagonistas no Tratado de Versalhes, em 1919, quando a guerra terminou. Pouco tempo depois voltaria à pauta, agora na agenda de Hitler, durante a Segunda Guerra Mundial.

Isso, porém, não era tudo. Decorrente da política de alianças formatada por Bismarck, no final do século XIX, a França viu-se em severo ostracismo no jogo político europeu. Em 1904, no entanto, conseguiu romper o isolamento em que se encontrava, fazendo um acordo de ajuda mútua com a Rússia em caso de agressão alemã. Isso fragilizava o crescente poderio alemão e, por outro lado, afetava também a Inglaterra, que até então desfrutava de cômodo isolamento, mas via-se agora cada vez mais ameaçada pela marinha alemã, levando-a aderir ao acordo franco-russo, formando a Tríplice Entente. Cercada por todos os lados, restou à Alemanha reforçar seus laços com a Áustria-Hungria, formando, juntamente com esta e a Itália, a Tríplice Aliança. A Itália, contudo, guardava sérias desavenças com o Império Austro-Húngaro, decorrentes de disputa por territórios durante a sua unificação e abandonou a Tríplice Aliança no início da guerra para lutar ao lado dos países Aliados (Tríplice Entente).

Assim, no início do século XX, a Europa encontrava-se envolta em um intrincado sistema de alianças que opunham frontalmente suas principais potências, que embora à primeira vista parecesse trazer ao continente um relativo equilíbrio, oferecia de forma mais contundente a possibilidade de um conflito generalizado, o que não tardou a acontecer, quando a latente questão dos Bálcãs, envolvendo Sérvia e Áustria-Hungria, voltou a tona com o assassinato do príncipe herdeiro do trono austríaco, Francisco Ferdinando, a 28 de junho de 1914, no evento que entrou para a história como o Atentado de Sarajevo.

Foi, portanto, para os Bálcãs que convergiram as tensões das crescentes hostilidades entre as potências europeias e onde, de forma mais incisiva, evidenciaram-se as questões de um forte sentimento nacionalista que fomentava o desejo geral de uma grande guerra. A Áustria-Hungria era uma monarquia dual, formada a partir do acordo de 1867 entre os dois estados, que abrigava um conjunto de nacionalidades distintas, compondo um caldeirão de tensões que afetavam, principalmente, os interesses da Sérvia e de sua aliada Rússia, que mantinha-se atenta à crescente expansão austríaca na região, dada a debilidade do Império Turco-Otomano.

Assim, quando decorrente dos fatos que levaram ao assassinato de Francisco Ferdinando em Sarajevo em junho de 1914, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia, a Europa esteve diante de sua primeira grande encruzilhada dos tempos modernos. Por ocasião do ultimato austríaco à Sérvia, a Rússia mobilizou-se em favor de sua aliada, levando a Alemanha a se posicionar em favor da Áustria-Hungria. Estava entrando em prática o delicado sistema de aliança entre as potências europeias que levaria a Alemanha a declarar, simultaneamente, guerra à Rússia e à França. Era o início da Primeira Guerra Mundial e da primeira grande catástrofe da humanidade nos tempos atuais.

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