Por que a Primeira Guerra Mundial é assunto importante para os dias de hoje?

By | 30 de julho de 2017

Em julho de 2014 a Primeira Guerra Mundial completou cem anos desde seu início. A data marca a declaração de guerra do Império Austro-Húngaro à Sérvia, seguida da declaração de guerra, no início de agosto do mesmo ano, da Alemanha à França e à Rússia. Hoje, há pouco menos de vinte anos, parte de seus reflexos ainda puderam ser sentidos na Europa em toda a sua intensidade, com a crise da Iugoslávia na década de 90 e a independência do Kosovo em 1999. Isso talvez dê a dimensão do conflito, que marcou o século XX e deixou legado para boas reflexões nos dias de hoje.

Para alguns historiadores, a Primeira Guerra Mundial foi não só o evento fundamente do século XX, como também uma revolução global. A Grande Guerra chegou ao fim com o esboroamento de quatro grandes impérios — Rússia, Alemanha, Áustria-Hungria e Império Otomano — além do esgotamento econômico da Europa, que abriu espaço para o florescimento de novas potências de ímpetos imperialistas no cenário mundial, como Estados Unidos e Japão. No campo social, econômico, político e territorial, não só na Europa, como em todo o mundo, as transformações foram profundamente sentidas, como atesta SHONDHAUS (2015):

(…) governos autoritários antiquados, como Hohenzollern e Habsburgo, bem como Romanov, não tinham lugar em uma Europa pós-guerra que contava com nada menos que 11 repúblicas em um mapa redesenhado a partir da fronteira franco-germânica até bem dentro da Rússia, com o aumento líquido de seis Estados independentes e a eliminação de uma grande potência tradicional, a Áustria-Hungria. Para além da Europa, a redistribuição das ex-colônias alemãs afetou o mapa da África, do leste da Ásia e do Pacífico, enquanto o fim do Império Otomano gerou o redesenho generalizado das fronteiras no Oriente Médio (…) (SHONDHAUS, 2015, p. 12).

Segue o historiador:

Mais do que questões de fronteiras e território, a guerra também viria a revolucionar as relações de poder dentro das sociedades europeias. Na Europa de 1914, a maioria dos homens adultos não tinha direitos de voto verdadeiramente significativos; além de Portugal, que tinha acabado de derrubar o seu rei, a França tinha única república da Europa e, entre as outras cinco potências europeias, apenas a Grã-Bretanha, e só recentemente, tinha havido um movimento sério pedindo a ampliação dos direitos das mulheres incluindo o de voto.

O mundo era definitivamente outro a partir de 1918, nem mais seguro, nem mais estável, mas, talvez, virado ao avesso, com uma Europa assentada sob uma paz tão frágil, que em pouco tempo viveria novamente o assombro de uma nova guerra generalizada. Ressurgido das cinzas do primeiro conflito, a Segunda Guerra Mundial nada mais foi, vinte e um anos após o Tratado de Versalhes, do que a continuação do conflito (HOBSBAWM, 1998).

Muitos historiadores que hoje dedicam-se ao estudo da Grande Guerra, tiveram vínculos pessoais diretos com o evento que marcou a Europa de 1914 à 1918. A historiadora canadense, Margaret MacMillan, em seu livro Primeira Guerra Mundial, a guerra para acabar com as guerras, relata a experiência direta de seus dois avôs no conflito, um servindo pelo exército indiano, no Oriente Médio, outro como médico canadense num hospital da Frente Ocidental:

Minha família conserva as medalhas de ambos, uma espada presenteada por um paciente em Bagdad e uma granada de mão com que brincávamos em criança no Canadá, até alguém achar que provavelmente não estava desativada (MACMILLAN, 2014)

Assim, pouco a pouco, seja nos reconhecendo em relatos pessoais como o de MacMillan ou em fatos cotidianos, por vezes relatados na imprensa internacional, como o caso de uma granada remanescente da Primeira Guerra Mundial que em 2013 acidentalmente explodiu e matou dois operários belgas em Ypres, vamos nos percebendo o quanto o legado da guerra é extenso e importante para os dias de hoje, ainda mais quando assistimos, perplexos, os marcados retrocessos nas conquistas sociais e lutas pela cidadania, e verificamos que boa parte de muitos direitos, agora em risco, foram oriundos daquele momento em que o mundo viveu em grande ebulição.

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