Primeira crise do Marrocos entre França e Alemanha em 1905 e a visita de Guilherme II à Tanger.

By | 30 de outubro de 2017

Visita de Guilherme II, Kaiser alemão, ao Marrocos em 1905, desencadeou a primeira crise do Marrocos entre França, Alemanha e outras potências europeias.

Em março de 1905, de volta de um cruzeiro a bordo do vapor Hamburg, o Kaiser alemão, Guilherme II, desembarcou em Tânger, no Marrocos, desencadeando uma, de tantas e graves crises que antecederam a Primeira Guerra Mundial que quase levaram a Europa à guerra generalizada antes de 1914. Na ocasião, o que pretendia o governo alemão, era criar uma agenda de conflito com a França, fazendo cindir a aliança recém-formada desta com a Inglaterra — a Entente Cordiale — e reafirmar o papel da Alemanha frente às questões internacionais que envolviam colônias europeias. Foi um tiro que saiu pela culatra. A crise ajudou a isolar a Alemanha e reforçar a aliança anglo-francesa, assim como a aliança franco-russa.

A visita de Guilherme II ao Marrocos na primavera de 1905 foi um erro de cálculo do governo alemão e um grave incidente diplomático, assim como aconteceria anos depois, também no Marrocos, no incidente de Agadir. No entanto, o governo alemão, a despeito da plena vontade do Kaiser, entendia que o momento era oportuno para, ao afrontar a França no Marrocos, testar a consistência da aliança entre ingleses e franceses, firmada e assinada no ano anterior (abril de 1904). O governo alemão entendia também que a outra aliada francesa, a Rússia, embora provinda de uma aliança mais antiga e aparentemente mais consistente com a França estava em total debilidade após a derrota contra o Japão para apoiar a França, tanto diplomática, quanto militarmente, se necessário fosse, em caso de uma guerra decorrente da questão marroquina. Contava ainda, a Alemanha, com um suposto apoio dos Estados Unidos para manter o Marrocos livre da influência dominante dos franceses, apostando em uma política de “portas abertas” defendida pelos EUA para a China anos antes.

Nada, no entanto, se concretizou assim de forma tão perfeita como planejara os alemães. Roosevelt, presidente americano, deixou claro à Alemanha que os americanos não tinham no Marrocos interesses suficientes para que seu governo se envolvesse na questão. E quanto a aliança anglo-francesa, o governo inglês decretou aberto apoio à causa francesa, fortalecendo os laços da Entente. A Alemanha, se viu assim, forçada, em 1906, após uma conferência internacional para dirimir a questão, a engolir o domínio francês no Marrocos e lidar com seus principais adversários — França, Inglaterra e Rússia — em uma aliança ainda mais consolidada.

Em 1898 França e Inglaterra haviam estremecido as relações após o episódio de Fashoda, uma insignificante província egipicia. O caso foi resolvido com o aceno da Inglaterra ao governo francês de que este poderia, em troca do Egito, apossar-se do Marrocos com o apoio inglês. Assim fez a França, ferindo um acordo entre as potências, de 1880, que previa que o Marrocos continuasse como país ‘independente’, em condições de atender aos interesses de todos os países europeus que ali mantivessem negócios. O domínio francês sobre o país africano nunca foi aceito pela Alemanha, que ao longo do tempo, buscou de todas as formas encontrar meios para inflar resistência entre os marroquinos contra a presença francesa. Assim, naquela primavera de 1905, quando Guilherme II desceu à terra firme e cruzou a cidade de Tânger sob o lombo de um cavalo árabe, foi vivamente ovacionado e festejado pelas ruas onde passava, saudado como uma espécie de herói da libertação marroquina.

A crise do Marrocos, como ficou conhecida a questão, foi resolvida em uma conferência em Algeciras (Espanha), com firme apoio da Inglaterra e Rússia à França e uma parca participação dos EUA, onde ficou definido que França e Espanha dividiriam o país em zonas de domínios e manteriam o controle sobre o banco estatal e policiamento dos principais portos. Internamente, levou a Alemanha à uma crise política e à quase demissão de Bernhard von Bulow, o chanceler alemão, arquiteto da visita de Guilherme II à Tanger.