A Primeira Guerra Mundial: de 1914 à 1918.

Tropas francesas, próximo ao rio Marne, em ataque aos Alemães, 1918.

A Primeira Guerra Mundial começou à 28 de julho de 1914 com a declaração de guerra do Império Austro-Húngaro à Sérvia em resposta ao Atentado de Sarajevo, ocorrido um mês antes. Para o governo da Monarquia Dual, uma guerra localizada nos Bálcãs bastava para suas pretensões. A intensão era tão somente aniquilar o ímpeto da Sérvia, que agia como catalizador dos sentimentos nacionalistas dos povos eslavos ameaçando o Império e selar de forma definitiva seu domínio na região. Para consecução de seus planos, no entanto, a Áustria-Hungria dependia da Alemanha, que a resguardaria em caso de intervenção da Rússia em apoio aos sérvios.

Os alemães, no entanto, viam na ocasião a oportunidade de uma guerra generalizada na Europa, colocando em ação o acordo da Tríplice Aliança, onde enxergavam a possibilidade de aniquilar a França e minar o poderio imperial da Grã-Bretanha. Assim, coube à Alemanha, efetivamente, dar início ao conflito que se tornaria a Primeira Guerra Mundial, ao declarar total e irrestrito apoio às ações austríacas no Bálcãs. Com isso, visava guerrear a Rússia, o que inevitavelmente traria para o conflito, pelo acordo da Tríplice Entente, a França e a Inglaterra. No dia 01 de agosto de 1914, portanto, ao menor sinal de movimentação das tropas russas com vistas ao conflito que se iniciara nos Bálcãs, a Alemanha declarou guerra ao governo do czar Nicolau II e dois dias depois aos franceses. A esta altura, a Inglaterra estava atenta aos compromissos que envolviam os acordos da Entente e no dia 04 de agosto, quando a Alemanha invadiu a Bélgia para avançar contra a França, declarou guerra aos alemães.

O plano alemão previa uma rápida e fulminante investida contra a França, pelo tempo suficiente em que o exército Austro-Húngaro, ao mesmo tempo que guerreava nos Bálcãs, trataria de retardar as tropas russas no leste europeu. Em seguida, os alemães voltariam o grosso de suas forças contra a Rússia, lutando, assim, em tempos distintos, mas simultaneamente, as duas frentes com grandes chances de vitória. A guerra na frente ocidental, contra a França, no entanto, duraria bem mais do que calculara o governo de Guilherme II e muito mais do que havia sido concebido pelo Plano Schlieffen. Rapidamente, as ações evoluíram para uma guerra de entrincheiramentos, com posições quase estáticas, onde não havia avanços significativos por parte de nenhum dos exércitos, levando o plano da Alemanha ao fracasso.

Ao começar a hecatombe, pensava-se que tudo estaria acabado ‘até o Natal’ (…) A ideia de que a guerra duraria pouco se constituiu no primeiro de uma série de equívocos. Ao contrário da expectativas, o conflito se arrastou por vários anos e, o que era pior, sem nenhuma perspectiva de solução. Tendo mobilizado mais gente do que em qualquer outra guerra até então a Grande Guerra não passou, até 1917, de uma sequência de campanhas sangrentas de desgastes e nenhum lado conseguiu, a curto prazo, qualquer vantagem decisiva capaz de desequilibrar a balança da luta. (LOPES, 1983, p. 17).

Na frente balcânica a guerra chegou ao esgotamento ainda em dezembro de 1914. Com a mobilização russa, parte das forças austríacas foram forçadas a dirigirem-se para a Frente Oriental, em auxílio ao exército alemão, o que prejudicou bastante as ações do Império Austro-Húngaro no Bálcãs. Mesmo assim, em sua ofensiva contra a Sérvia, as tropas da Áustria-Hungria conseguiram chegar a Belgrado, infligindo grandes perdas ao exército inimigo, mas foram expulsas em seguida em uma contra-ofensiva. Sem forças, porém, para continuar a luta, a Sérvia restringiu-se a salvaguardar o seu território deixando de incomodar o Império Austro-Húngaro, permitindo a este destinar o restante de suas forças para lutar contra os russos e contra os italianos, tornando quase inativo o conflito naquela região (SONDHAUS, 1915).

Na Frente Oriental, ao mesmo tempo que o exército alemão conseguia importantes vitórias contra a Rússia, cujo embate mais significativo fora a Batalha de Tatenberg, o exército austríaco dava sinais de fraqueza, tendo permitido aos russos, um avanço significativo, conquistando a Prússia Oriental, depois retomada pelos alemães. Assim, ao final de 1914 e início de 1915, o conflito apresentava as características de um impasse que perduraria por quase toda a guerra. No parte ocidental, a Alemanha havia perdido a Batalha do Marne para os franceses, ainda que nesta frente tivesse obtido vitórias significativas. No oriente, havia obtido importantes vitórias contra os russos, porém, de nenhum lados era possível perceber nada mais do que vitórias ou derrotas parciais, sem demonstrações contundentes de que algum dos lados pudessem vencer a guerra.

Em 1917, usando como pretexto a guerra indiscriminada que os submarinos da Alemanha faziam a quase todos os países, o EUA entraram em cena do lado Aliado (Entente), declarando guerra à Alemanha a 06 de abril daquele ano. Muito mais que alinhamento ideológico, as razões econômicas foram determinantes para o posicionamento norte-americano junto a Entente. Desde o início do conflito, os EUA já abasteciam a frente aliada com bilhões de dólares, cedidos em empréstimos pelos bancos americanos e também eram os principais fornecedores de armas e munições àqueles países.

O ano de 1917 foi determinante para a Primeira Guerra Mundial não só pela entrada de fato dos EUA na guerra, mas também, foi o ano em que a Rússia, abalada pela Revolução Bolchevique, saiu do conflito, por meio de um tratado de paz isolado com a Alemanha. Isso deu grandes esperanças de vitórias aos alemãs, que puderam destinar a quase totalidade de suas forças para a Frente Ocidental. Assim, a partir de 21 de março do ano seguinte, a Alemanha traçou um plano de ofensiva contra os aliados, a Operação Michael, determinados, agora, a romper as linhas inimigas e vencer a guerra. Foi, no entanto, surpreendida pela resistência Aliada, já reforçadas pelas tropas americanas, sofrendo um revés decisivo a 18 de julho de 1918, naquela que ficou conhecida como a Segunda Batalha do Marne.

Entre o início da operação “Michael”, em 21 de março, e o seu pico na segunda Batalha do Marne, em 18 de julho, a ação na frente ocidental gerou mais baixas do que nenhuma outra frente gerara até então. Entre os Aliados, os franceses foram os que sofreram mais baixas, com 433 mil, seguidos pelas forças britânicas e seu império, com 418 mil, enquanto as baixas da Alemanha — 641 mil mortos ou feridos — igualavam quase metade da sua força na linha de frente em março. Em qualquer caso, estava claro que a maré virara. O chanceler Hertling recordou mais tarde como a esperança se transformou em desespero nos primeiros dias da batalha: “No dia 18, mesmo os mais otimistas de nós sabiam que tudo estava perdido. A história do mundo foi jogada em três dias.” (SONDHAUS, 2015, p. 455).

SONDHAUS (2015), aponta-nos, ainda, algumas razões do fracasso alemão em sua investida final:

Por que a ofensiva falhara? Até 18 de julho, o espírito do exército alemão era bom, em termos gerais, mas as quebras de disciplina tinham sido frequentes. Muitas vezes, soldados famintos paravam para se refestelar em comida e vinho encontrados nas trincheiras que capturavam, retardando seu avanço. Ao mesmo tempo, uma deterioração no decoro militar fazia com que relembrassem com frequência aos oficiais subalternos e aos soldados sua obrigação de saudar seus superiores e manter uma postura adequada. Como os Aliados, em suas ofensivasentre 1915 e 1917, os alemães em 1918 deveram, em geral, seus avanços iniciais a táticas inovadoras e bom uso da tecnologia, mas recorreram à força bruta assim que elas deixaram de ter efeito, aumentando suas próprias baixas. Eles não conseguiram chegar a uma “Tannenberg” em lugar algum da frente ocidental, e depois de quase cercar o 5o Exército britânico nos primeiros dias da “Michael” não voltaram mais a chegar perto. Os generais alemães criticaram a natureza fragmentada e experimental da ofensiva, e já na “Georgette” o alto custo dos ganhos modestos fez com que oficiais e soldados também perdessem a fé na vitória final. Se Ludendorff tinha um grande projeto estratégico, era dividir os setores britânico e francês da frente. Depois de não conseguir, os avanços feitos em ataques posteriores, até “Blücher-Yorck”, inclusive, confundiram seu pensamento, colocando Paris tentadoramente perto do alcance alemão (SONDHAUS, 2015, p. 448).

Na Frente Oriental, a guerra estava formalmente terminada desde o ano anterior (1917) quando a Rússia assinou, em separado com a Alemanha, o trato de Brest-Litovsk, abandonando a frente de batalha. No ano seguinte, o exército austro-húngaro esboroou-se em sua última investida contra os italianos. Com a derrota na Segunda Batalha do Marne, as tropas alemãs estavam praticamente vencidas, embora resistissem ao avanço dos aliados, ainda que, a partir deste ponto, não houvesse mais possibilidades de vitória. A 8 de novembro de 1918, os líderes políticos da Alemanha reuniram com as representações das Potências Aliadas para tratar os termos do armistício. O cessar fogo foi estabelecido para as 11 horas, do dia 11 do 11º mês de 1918. Estava terminada a Primeira Guerra Mundial.

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