As origens, as causas e as consequências da Primeira Guerra Mundial.

Protesto em Berlim contra o Tratado de Versalhes – Foto: NYTimes

No início do século XX, o mundo aparentava ser um lugar seguro. As guerras do século anterior haviam sido localizadas e rápidas e parecia não haver questões tão graves que pudessem colocar o continente europeu inteiro em uma guerra. A humanidade aspirava e respirava progresso. Por que, então, apesar da convincente aparência de paz, o mundo precipitou-se naquela que seria uma das maiores catástrofes da humanidade? O que levou o mundo e a Europa, que vivia os esplendores de uma gloriosa época de avanços científicos e culturais a uma das mais sangrentas guerras da história, que ceifou mais de 10 milhões de vidas e devastou o continente?

Neste estudo trataremos em cinco artigos, a começar por este, importantes questões sobre a Primeira Guerra Mundial, tais como: as causas que levaram o mundo à guerra; como se deu e quais a principais batalhas; o que foi o Tratado de Versalhes e suas consequências para o mundo; e a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial. Na seção Leitura Complementar, disponibilizaremos outras publicações que ajudarão no melhor entendimento deste evento, que por sua magnitude e abrangência, é de fundamental importância para entender o século XX e seu legado para os dias de hoje.

Comecemos, então, por uma breve apresentação da Primeira Guerra Mundial.

Apresentando a Primeira Guerra Mundial.

No início do século XX o mundo vivia relativa paz, até que no verão de 1914, um evento mortífero, de dimensões catastróficas, tomou a cena do mundo, deixando quatro anos depois um saldo de mais de 10 milhões de mortos. Era a Primeira Guerra Mundial, o primeiro grande conflito bélico da era moderna que envolvia todas as grandes potências da Europa e parte de suas colônias e domínios – o que incluía regiões da África e da Ásia – além de Estados Unidos e Japão. Na América Latina, o Brasil foi o único país a fazer parte dos esforços de guerra enviando uma missão militar à Europa, que chegou atrasada ao continente já às vésperas do armistício. Mesmo assim, a missão brasileira era composta em sua maioria por médicos e enfermeiros e atuou, basicamente, após o término da guerra, na assistência humanitária e no atendimento aos feridos e vítimas do conflito.

A Grande Guerra surgiu num contexto de extrema concorrência entre as nações imperialistas da Europa, que no alvorecer do século XX, disputavam mercados consumidores e colônias no cenário internacional. Com a Unificação da Alemanha, em 1871, tal disputa acirrou-se ainda mais, levando o continente europeu a uma corrida armamentista que tomaria sua forma mais agressiva na disputa naval entre Alemanha e Grã-Bretanha. A disputa entre estas duas potências fazia subir a tensão no continente, levando toda a Europa a um ambiente de medo e insegurança, gerando um sentimento mútuo de desconfiança entre os governos, o que os levava a construir alianças entre si. Estas alianças, por sua vez, potencializariam as dimensões do conflito quando a guerra começou em 1914.

Inicialmente, a França estava vivendo um relativo isolamento político frente às demais potências europeias. Isto era fruto da política de Otto von Bismarck, que ao sair-se vitorioso na Guerra Franco-Prussiana, quando consolidou, sob a liderança da Prússia, a unificação da Alemanha, colocou a França em enfraquecida situação junto aos demais países. Porém, em finais do século XIX, a França conseguiu romper a política diplomática de Bismarck e selou um acordo com a Rússia, visando, assim, minar a crescente supremacia alemã no continente europeu. O acordo Franco-Russo seria a base da aliança que mais tarde formaria a Tríplice Entente, contando com a participação da Grã-Bretanha a partir de 1907.

A Alemanha, por sua vez, depois de fracassar em diversas tentativas de trazer a Inglaterra para seu lado, jogando-a contra a França, viu-se obrigada a reforçar seus laços de amizades com sua irmã mais pobre, a Áustria-Hungria. Era a forma que o império alemão encontrava de resguardar-se da aliança Franco-Russa, que geograficamente, cercava seu território tanto a leste quanto a oeste. A aliança germano-austríaca, contava também com a incipiente participação da Itália e ficou conhecida como a Tríplice Aliança.

Assim, na primeira década do século XX, a Europa estava completamente divida em dois blocos: França, Rússia e Grã-Bretanha de um lado; Alemanha, Áustria-Hungria e Itália de outro. E uma guerra generalizada no continente passou a ser realidade cada vez mais próxima, girando em torno da corrida naval entre Inglaterra e Alemanha, quando esta última mostrava-se cada vez mais agressiva no cenário internacional, ameaçando o domínio britânico no mundo colonial.

A eclosão da guerra.

A guerra, no entanto, não nasceu do confronto direto de nenhuma das potências. Uma questão, a princípio localizada, fez acionar o sistema de alianças europeu, levando o mundo a Grande Guerra. Em 1908, a Áustria-Hungria havia anexado a Bósnia-Hezergovina à seu território, o que afetava diretamente as pretensões da Sérvia nos Bálcãs, tornando latente a possibilidade de uma guerra regional. E isso não tardou a acontecer. No verão de 1914, depois do assassinato do arquiduque príncipe herdeiro do trono Austro-Húngaro Franz Ferdinando, em Sarajevo, a Áustria-Hungria, com o aval da Alemanha, declarou guerra á Sérvia. O que inicialmente poderia ser um conflito isolado, como tantos outros que afetaram os Bálcãs em anos anteriores, rapidamente espalhou-se pelo continente europeu, quando a Rússia, em solidariedade à Sérvia mobilizou seu exército, fazendo a Alemanha por em prática seu antigo plano de guerra, em defesa da Áustria-Hungria, declarando guerra à Rússia e dois dias depois à França.

A Inglaterra, alegando a violabilidade dos direitos internacionais quando a Alemanha invadiu a Bélgica em direção à França, declarou guerra aos alemães, fazendo valer o acordo da Tríplice Entente. Ao final de 1914, o continente europeu estava deflagrado em duas frentes de guerra: a leste, a Frente Oriental, onde se enfrentavam o grosso do exército austro-húngaro, reforçado por algumas divisões alemãs; e a oeste, na Frente Ocidental, onde a Alemanha concentrava seus esforços para vencer a resistência francesa e o exército inglês.

O desfecho e as consequências.

Em 1917 os países Aliados, formados pela Tríplice Entente, ganharam um reforço de peso que faria pender a balança do conflito para seu lado, com a entrada dos Estados Unidos na guerra. Exaurida por uma guerra em duas frentes, a Alemanha viu-se obrigada a capitular um ano depois, assinando o armistício em novembro de 1918, depois de já ter assinado uma paz em separado com a Rússia, que retirou-se da guerra no mesmo ano em que os EUA entraram, para tratar de suas questões internas referentes à Revolução Bolchevique.

Vitoriosos, os Aliados trataram de responsabilizar a Alemanha pelas danos e prejuízos da guerra, imputando a esta pesadas obrigações, além de toda culpa pelo conflito. Em janeiro de 1919, impuseram aos alemães a assinatura do Tratado de Versalhes que previa o confisco de todas as suas colônias no além-mar, o ressarcimento financeiro dos custos da guerra aos vencedores, a devolução aos franceses da região da Alsácia-Lorena, além da proibição de manutenção de um exército com número superior a cem mil homens. A Alemanha foi totalmente alijada das discussões que levaram às cláusulas do tratado de paz, tendo sido obrigada a submeter-se sem maiores resistências a todas as condições impostas. Sob o fracasso do Tratado de Versalhes, no entanto, o mundo veria nascer outra guerra, de proporções ainda maiores, vinte e um anos depois, sob os auspícios do III Reich, propugnado por Hitler.

Como consequências da guerra se descortinaria, ainda, um novo cenário mundial que alçou os Estados Unidos à condição de potência mundial. O mundo jamais voltaria a ser o mesmo após a Primeira Guerra Mundial e muitos historiadores a tomam por uma revolução global dada as transformações que trouxe, não só no âmbito das relações internacionais entre os países, mas no escopo da política interna, econômica e social de cada nação, envolvida ou não diretamente no conflito.

Copyright© 2017 – Todos os direitos reservados – Prof. Richard Abreu.